top of page
Search

Festa Ancestral ao Pé do Morro do Farol

  • Writer: Liah'ah
    Liah'ah
  • 3 days ago
  • 6 min read
Fim de tarde no pé do morro
Fim de tarde no pé do morro

O segundo dia em Torres começou com um teste de flexibilidade: os planos mudaram repentinamente e a viagem seria encurtada. Eu tinha pensado em ficar até o fim de semana, quando a previsão do tempo sugeria que haveria sol, mas a vida se alinhou para que meu retorno ocorresse na sexta-feira de manhã.


Inicialmente fiquei frustrada com a notícia, mas logo me lembrei de que não existem erros nos planos divinos; que o Ahmyo é sobre confiar que o que acontece é sempre a coisa certa.


Deixei a aceitação do momento presente acontecer lentamente, enquanto desenhava no quarto que tinha sido reservado para mim. No silêncio da manhã, os pássaros cantavam e o lápis de cor me acalmava.


De repente, quando olho pela janela do quarto, um beija-flor vem ao meu encontro. Parecia que ele queria me bicar, tal qual eu fosse uma flor!


Que bom presságio! Nada como a vida mandando mensagens através da natureza. Um enorme sorriso se abriu em meu rosto ao ver o voo daquele mensageiro da alegria.


Depois de outro acolhedor almoço em família, rumei para a praia, dessa vez levando na mochila meu sagrado maracá.


No início da caminhada as emoções ainda se confundiam em meu peito, mas já estou acostumada com a transformação em movimento. Cada passo dado é um peso que fica para trás. A caminhada é também um instrumento de purificação.


E essa caminhada tinha algo de especial, pois o vento trazia em si a brisa do mar, que eu respirava profundamente, conscientemente, enquanto me aproximava da praia.


No meio do caminho, uma árvore de hibiscos rosa chamou minha atenção. Era um rosa forte, vibrante, que contrastava com o dia cinza.


Na hora entendi que eu devia colher uma flor e oferendar a Iemanjá. Pedi licença à árvore, a saudei com as mãos unidas acima da cabeça e colhi uma flor de hibisco.


Levei a flor comigo e, ao chegar à praia, finquei seu caule na areia. Acendi um incenso para os caboclos e coloquei do lado dela: duas oferendas frente ao mar.


Duas oferendas frente ao mar
Duas oferendas frente ao mar

Estar ali, sentada de frente para o mar, com a fumaça do incenso esvoaçando e aquele rosa vibrante da flor iluminando tudo, foi o sinal de que a alquimia estava completa; eu estava finalmente em paz. A celebração poderia enfim começar.


Levantei-me e, de pés descalços, pisei a areia. Escolhi meus pontos de caboclo favoritos, coloquei os fones nos ouvidos e deixei os atabaques guiarem meu passo.


Energizada e com o coração cheio de amor, colhi a flor da areia e caminhei até o mar, deixando as ondas molharem meus pés. A água estava fria, mas o abraço que eu recebia do mar era profundamente acolhedor. Com o hibisco na mão, falei com a Mãe das Águas.




Como diz a música de Gerônimo Santana: “Nada pedi, só agradeci”. Agradeci por tantas bênçãos, por cada conflito interno que eu conseguia resolver dentro de mim, por cada desafio que se tornava aprendizado e um degrau na minha evolução, por cada pessoa que se importava comigo e demonstrava amor, por todas as sincronicidades que seguiam me provando que eu estava no caminho certo. Agradeci pela vida, agradeci por estar na beira do mar, agradeci à minha madrinha, que me convidou e proporcionou eu estar ali com os pés na areia. Agradeci minha força, determinação e coragem. Agradeci por tudo que estava acontecendo na minha vida.


Apenas agradeci e deixei a flor ser levada pela água.


Depois voltei para perto das minhas coisas na areia, sabendo que a hora do meu maracá reencontrar a praia tinha chegado.


Eu aprendi a tocar ele na prática. No começo, o som das sementes assustava por ser bem alto, e parecia que eu não ia pegar o ritmo nunca. Mas fui deixando ele me ensinar como tocá-lo. Aprendi lá nas praias da Aldeia Xandó, na Bahia. Desde lá ele me acompanha por onde eu vou e, a cada dia, me ensina um pouquinho mais.


Dos pontos de terreiro parti para os Huni Meka, os cantos tradicionais do povo Huni Kuin. Originalmente, os Huni Meka eram entoados apenas com a voz, mas hoje é possível encontrar diversas versões desses rezos acompanhados de violões e tambores. É música que cura.


Conectada a essa força amazônica, tirei meu sagrado maracá da mochila e comecei a acompanhar o ritmo da música. Eu tocava, cantava e dançava com meus pés na areia e meu olhar no horizonte.


No ápice de um rezo que gosto muito, a realidade física me trouxe de volta: percebi que dois jovens passaram muito perto de mim, observando fixamente meus movimentos e minhas coisas. Senti um desconforto, mas decidi que terminaria o rezo antes de me mover por medo.


Quando a música terminou, honrei a direção que me apontava minha intuição. Coloquei meu tênis e segui meu caminho para as pedras da prainha de Torres, que ficam na base do Morro do Farol, onde eu havia subido no dia anterior.


Contemplei aquela situação com clareza. Eu me sentia segura, eu sabia que não aconteceria de alguém entrar na minha energia e roubá-la e, justamente para honrar esse saber, confiei na minha intuição. Se o coração diz para seguir caminho, é melhor seguir caminho.


Recolhi minhas coisas na mochila e fui caminhando pela praia, ouvindo os rezos nos fones e levando o incenso na mão. Quando cheguei até as primeiras pedras, ainda um pouco distante do morro, deixei ali o incenso para os caboclos, e subi para a calçada.


Enquanto eu caminhava pela calçada, escutava o Saiti Yawanawa “Anope”, um canto tradicional do povo Yawanawá que evoca a força da natureza. Eu cantava baixinho quando um bem-te-vi passou voando bem em cima da minha cabeça. Foi lindo! Senti que a força que a música celebrava ganhou forma na minha realidade naquele exato momento, e não pude evitar sorrir.


Esse rasante do bem-te-vi foi a confirmação de que eu estava protegida e conectada, e impulsionou meus passos até eu chegar a uma área super rochosa da praia, agora sim na base do Morro do Farol.



Ali, entre as pedras, tirei novamente o maracá da mochila, mas guardei os fones, para cantar livremente e ouvir bem minha própria voz.


Enquanto eu cantava, dedicava o toque das sementes aos povos Guarani que viveram livremente por milhares de anos nas praias do Brasil e, hoje, vivem isolados em pequenas aldeias, com acesso restrito a toda abundância que a natureza sempre ofereceu. Quem caminha por Torres hoje, em 2026, vai entender bem do que eu estou falando: a cidade virou uma floresta, mas de concreto.


A tarde foi se despedindo à beira-mar enquanto eu cantava para Iemanjá e entoava pontos da cabocla Janaina, saudando a Mãe das Águas Salgadas. Foi justamente nesse ponto que desbloqueei uma nova habilidade: tocar três tempos com o maracá e cantar ao mesmo tempo! Pois é, o ritmo é um enigma que venho desvendando ao longo da vida. Mas, a partir de agora, posso dizer com muita alegria que, quando toco em três tempos e canto, foi Iemanjá quem me ensinou.


Na hora do pôr do sol, gratidão infinita permeava todo meu ser. Finalizei a cantoria e iniciei um rezo de agradecimento em voz alta, agradecendo à ancestralidade.




Estar ali no pé do morro me fez refletir sobre todas as histórias que os povos antigos tinham contado sobre o surgimento daquele morro e de todas aquelas rochas que estavam ao meu redor. O que teriam dito, ao redor da fogueira e sob as estrelas, sobre o surgimento do mar e da areia? Que histórias teriam contado os velhos aos seus filhos e netos, sobre o surgimento do mundo e do universo? Que histórias haveriam de saber sobre os peixes no fundo do mar e as gigantes baleias que cruzam nosso litoral? Quanta sabedoria aquelas pedras, nossas avós, teriam guardado em silêncio durante milhares de anos?


Na minha completa ignorância dessas histórias fantásticas, mas no meu completo respeito a essa antiga tradição, agradeci a cada pedra daquela praia.


“Aguyjevete Nhanderu!”, eu dizia, e sentia os espíritos dos povos nativos dançando na beira da praia, como se nunca tivessem deixado aquele lugar. Agradecia a esses espíritos com o coração aberto, e pelo meu corpo percorriam arrepios energizantes. Me sentia em perfeita comunicação com o astral. Mesmo que nada se pudesse ver com os olhos, no sentimento eu tinha a clareza de que eles agradeciam por ser lembrados e celebrados.


Ao completar minha oração ao mar e às rochas, agradeci às ondas suaves, ao céu e às nuvens. Agradeci pelos pássaros, desde o beija-flor que havia me cumprimentado de manhã, até o bem-te-vi que acabava de cruzar meu caminho; às garças, que em sua solitude buscam alimento no mar, e ao quero-quero, que com seu canto me traz a sensação de estar em casa.


Senti naquele fim de tarde ao pé do morro que uma reunião aconteceu ali. Não sei quem eram as entidades presentes, mas sei que foi uma grande festa.


Fui embora com um sentimento de completa paz, rindo sozinha, sorrindo à toa.


Voltei caminhando pela praia, me despedindo aos poucos, sabendo que no dia seguinte eu estaria de volta para mais uma celebração da vida.



Liah'ah

 
 
 
bottom of page