Encontro com a Jiboia Encantada
- Liah'ah

- há 58 minutos
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A fogueira sagrada que arde no centro da oca é também encantada.
O fogo sagrado queima a madeira, e a fumaça e faíscas que sobem ao céu conectam os dois mundos: terreno e astral.
O fogo dança e conta histórias, ele segue o ritmo da música que sai do coração dos homens. Se é calmaria, ele é calmo, mostra em figuras abstratas aquilo que preciso ver. Se o ritmo acelera, ele dança com a música e sobe com paixão até o céu.
Sentada na areia, no meio da roda, no meio da oca, no meio da aldeia, eu sorria e via o que ele queria me contar. Vi animais nos pedaços de madeira, vi ancestralidade na madeira que virou brasa, vi beleza além das palavras. E quando a música mudou e o fogo subiu apaixonado, eu subi com ele e também comecei a dançar, a dançar e girar no espiral de energia divina que envolvia a oca.
Em determinado momento, vi duas onças pintadas caminhando ao redor da fogueira. Guardiãs da floresta e símbolo Pataxó ; mais além de ver suas figuras de luz caminhando sobre a terra, em outro momento senti sua energia em todo o espaço, como se me tivesse sido aberto o portal sagrado da Floresta Encantada.
O céu e terra eram um só, sem separação. De olhos fechados ergui meus braços em êxtase enquanto os músicos cantavam "Pataxó não anda só" e senti uma forte luz branca iluminar toda a oca. Quando abri os olhos vi a floresta.
Me senti honrada e agradecida de fazer parte de tão preciosa cerimônia.

Tudo começou com o sopro do rapé. Um jovem rapaz com rosto de anjo foi quem soprou. Um sopro beija-flor. Em outras vezes com rapé eu só vi escuridão, mas nesse dia aprendi que ele é a cura do amor.
Sentada em meu tapete em postura meditativa as primeiras palavras que ouvi do Rapé foram "Eu Sou" e no vasto vazio aquilo ecoou com presença, como uma luz plena que suavemente iluminava a escuridão.
E com sua delicadeza o beija-flor chegou. Batendo as asas velozmente e revoando meu peito. Trazendo amor no seu bico, o depositou ali mesmo e então partiu, me deixando alegria e leveza.
A força da Ayahuasca veio quando o pajé chamou. Ele cantou rezos pra abrir a cerimônia, e quando ele chamou a força ela veio, pelo menos para mim.
Foi então que ele contou a história da Ayahuasca, uma que eu já havia conhecido e apreciado em outra cerimônia, agora ganhava uma nova profundidade. Cada palavra dita por ele era vivida por mim em uma outra dimensão. Era como se eu pudesse sentir o que sentiram os indígenas da história, que viviam em um mundo sem maldade. Fui transportada à Amazônia de milhares de anos atrás e me senti conectada ao povo que ali vivia, através da bebida sagrada que serpenteava dentro de mim e transformava o plano astral em realidade absoluta, um lugar além do tempo espaço.
Eles beberam o que hoje eu bebi. Eles entraram no mundo mágico da serpente Siriani. E naquela noite eu poderia entrar também.
Senti como se ao contar a história, o pajé levasse a todos em uma verdadeira viagem multidimensional.
Quando ele terminou de contar a história, os músicos começaram a tocar. Eu me sentei e senti a força fluindo pelo meu corpo.
Levantei e fui dançar, precisava deixar ela correr livre. Era como se eu tivesse tomado um copo de essência divina e agora ela fluísse dentro de mim. Senti que através da dança eu trazia pro meu corpo e pra terra essa luz astral, essa Luz Divina que fluia pelo meu suor e pulsava como um tambor no meu coração.
A segunda dose me atingiu com mais força, como sempre acontece. Fiz muita limpeza e passei longos minutos no meu tapete, em viagens interiores intensas e conversas com a Jiboia. Primeiramente ela se apresentou maldosa, refletindo meus pensamentos de auto julgamento e arrependimento. Ela se retorcia dentro de mim e cada vez que eu vomitava era como se fosse ela que estivesse em meu estômago e esôfago me fazendo vomitar.
Deitada de olhos fechados eu vi a Cobra Coral e perdi qualquer noção do mundo físico, até mesmo os meus pensamentos derretiam e se despedaçavam, qualquer tentativa de controle era inútil.
Então flui para dentro desse mundo interior onde tudo era vibração e cor, e percebi que não havia maldade alguma na Jiboia ou na Coral, a maldade era apenas minha própria resistência ao fluxo.
A música que estava sendo tocada falava de cuidado, cura e amor. E nesse momento senti alguém puxar meu lençol debaixo do meu corpo e me cobrir com ele. Foi um gesto tão amoroso, de uma das guardiãs do grupo.
Fiquei deitada por uns instantes e assim que levantei vivi o ápice da noite, que foi a história que compartilhei no começo desse texto.
Os músicos tocavam enquanto eu dançava em frente ao fogo. De olhos fechados eu sentia tudo vibrar e via tudo brilhar. Hoje sei que o que eu estava vendo naquele dia, era o que os Huni Kuin chamam de “kenés”, padrões geométricos sagrados.
Quando abri meu coração pra ver que não havia maldade na serpente dentro de mim, então entrei no mundo mágico de Siriani.

Abri os olhos e vi a floresta, senti a energia da onça pintada e uma alegria plena. E era como se todos ao redor estivessem nessa floresta mágica, não com seus corpos humanos, mas com seus corpos astrais.
A Jiboia Encantada dançava dentro de mim sem impedimentos. Me senti livre. Me senti em união com ela, sem resistências, somente alegria. A música tocava e eu via as notas musicais no ar, eu sentia a música com todo meu ser.
Dancei até meu corpo não mais aguentar e deitei para um sono profundo e belo.
Observei tantas dimensões do pensamento e me perguntei se todas as noites não são assim tão mágicas, e apenas não estamos atentos para perceber.
Respirando conscientemente adormeci. E quando despertei o dia havia clareado. Era manhã e os músicos seguiam tocando apaixonados. Na verdade até parece que de manhã eles estão ainda mais encantados. Dormir e acordar ao som de tão belas canções e rezos é um presente pelo qual sou muito grata.
Sempre quando desperto do meu breve sono na aldeia, é como despertar do mais mágico sonho e perceber que ele ainda está acontecendo.
Alegria e gratidão emanavam de cada célula do meu corpo e uma paz plena envolvia meu coração.
Só tenho a agradecer a todos que fazem possível cerimônias como essa, respeitando a história e sacralidade dessa medicina ancestral que conecta os mundos e une as pessoas.
Haux Haux Nixi Pae
Awêry Pajé Aktxawã
Awêry Aldeia Bugigão e todos os guardiões.
- Liah'ah 🌸🌟💫




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