O Voo Sem Esforço e o Infinito Amor Divino
- Liah'ah

- 11 de jul.
- 4 min de leitura
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Em junho de 2026 fui convidada por minha madrinha a passar uns dias com ela na cidade de Torres, no litoral norte gaúcho.
Sua casa acolhedora e a natureza viva dessa cidade costeira foram a inspiração perfeita para eu voltar a escrever sobre minhas aventuras.

Essas aventuras não acontecem apenas quando viajo. Até mesmo uma caminhada pelas ruas do meu bairro pode inspirar profundas viagens interiores, reflexões filosóficas ou simplesmente a sensação de apreço pela vida e pela natureza.
Essa sensação se expande quando estou em movimento.
Pelas janelas do ônibus, eu via a paisagem ir mudando aos poucos. Os prédios da cidade iam dando lugar ao vazio da estrada. O céu nublado acompanhando, como um dia típico do inverno no sul do Brasil.
Rumando pro norte, começaram a aparecer os morros. O Rio Grande do Sul é uma terra abençoada pela Mata Atlântica, abundante em morros, trilhas e cachoeiras de tamanha beleza. Da estrada, apenas os cumes dos morros se podiam ver, e despertavam em mim a curiosidade de que belezas escondidas essa terra guarda.
O sol resolveu aparecer pra me receber, e na casa da dinda, fui recebida com um delicioso almoço. Refeições afetivas também são uma bênção pela qual aprendi a agradecer.
De tarde uma forte dor de cabeça começou a me incomodar, mas decidi levá-la pra passear. Afinal, entre ter dor de cabeça em casa ou a beira-mar, eu preferia pelo menos estar na companhia das ondas.
Rumei pro Morro do Farol, é uma caminhada relativamente curta desde a casa onde eu estava, e o pôr do sol se aproximava, prometendo esplendor.
Mesmo antes de subir a ladeira do morro, ou melhor, aos pés da ladeira, como a guardiã do caminho, uma enorme figueira de bengala ocupava a esquina com seu tronco antigo e suas ramificações, e sua gigantesca copa que nem mesmo coube inteira na foto que tirei. Fiquei pensando quantas vezes já subi aquela ladeira e nem dei bola para essa “simples” árvore. Dessa vez, ela não passou batido, a saudei como ela merece, uma anciã da cidade.
Mais tarde pesquisando sobre ela, descobri que para os hindus ela é uma árvore sagrada, citada até mesmo no Bhagavad Gita, e representa um pilar de conexão entre o terreno e o divino.

Subindo a ladeira, mais encantos da natureza me aguardavam.
Em vez de descrevê-los em palavras, deixo aqui as fotos que tirei no caminho.




Já radiante e energizada pela caminhada, cheguei ao topo do morro.
Aquela vista tão conhecida não deixou de me impressionar. Que beleza a pedra da guarita, que beleza o horizonte infinito e o mar, o mar que nunca para de ter ondas. Isso é uma das coisas mais lindas que existe pra mim, toda vez que chego na praia e tem ondas do mar, isso me toca de uma maneira tão profunda, e pode parecer bobo até, como uma coisa tão “óbvia” como as ondas do mar pode tocar alguém tão profundamente? Mas eu vejo que essas ondas indo e vindo são como o amor de Deus. Eu vejo esse oceano infinito como a vasta essência divina, calma, amorosa, que está sempre lá, não importa se a gente está vendo ela ou não. Eu posso ir pra cidade, viver um monte de experiências boas e ruins, esquecer completamente do mar, ou até lembrar com saudade, mas quando eu chegar perto dele de novo, ele vai me acolher de uma maneira única. É a pura energia de Odoyá, a mãe de todos os Orixás, a mãe água que dá vida. A mãe que acolhe e não julga.
E ela inspira liberdade, imensidão, pureza e purificação. As ondas trazem abraços que curam. Elas nunca param, nunca. As marés estão sempre subindo e descendo, as ondas estão sempre indo e vindo, como o amor divino está sempre fluindo, infinitamente, incessavelmente.
Foi mágico ver as ondas, as rochas milenares, a vegetação ao redor do morro, sentir o vento forte vindo do mar. O vento gelado de inverno e salgado de maresia.
Mas fiquei me perguntando, onde estará o sol? Caminhei até o outro lado do morro, dando as costas pro mar, e ficando de frente pra mata.
De trás da mata e de uma linda palmeira Jerivá, recebi a bênção dourada do pôr-do-sol.
Assoprei as palmeiras com um sopro sagrado, deixando que o vento levasse minha gratidão até elas, enquanto abria as mãos para o céu.

Continuei minha aventura no topo do morro, parando mais uma vez pra olhar a imponente Pedra da Guarita, mas dessa vez quem capturou minha atenção foram os mestres do voo sem esforço: os urubus.
Não é de hoje que sou uma admiradora do seu voo. Apesar de muita gente ver ele como um bicho feio, para mim, vê-lo planando, fluindo com as correntes térmicas, é o exemplo perfeito de Graça. Ele se aproveita do ar quente que vai subindo, e somente abrindo as asas, sobe junto, podendo voar a milhares de metros de altura.
O Condor, parente andino do nosso urubu, é visto pelos povos nativos como uma ave sagrada e um mensageiro espiritual, que por voar em altitudes elevadas, leva nossas intenções direto ao sol.
Essa ave é também um símbolo de alquimia e renascimento. Naquele momento, observando-o a planar em grandes espirais, permiti que ele se alimentasse de tudo aquilo que já havia morrido em mim, e transformar tudo em voo pleno.
Fiquei mais um tempo apreciando a vista da imensidão desde o topo do morro, e voltei caminhando pela beira-mar.
Diante de tanta expansão e magia, a dor de cabeça que em casa me atormentava era agora um eco distante. O barulho das ondas e o amor de Odoyá preenchiam meu coração.
Desci aquele morro sabendo que não importa quanto tempo eu ficasse longe dele, quando eu voltasse a subi-lo, eu seria outra, mas o amor da Mãe, seria o mesmo.
Próximo capítulo dessa aventura de 3 dias vindo em breve!
Com amor, Liah'ah



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