Um Presente Inesperado
- Liah'ah

- 2 de ago.
- 7 min de leitura
O terceiro dia foi uma aventura e tanto!
Para entender o meu ânimo ao amanhecer, vale voltar um pouco na noite anterior. Depois da celebração na praia, o recolhimento em casa trouxe à tona alguns processos internos pesados. Foi uma daquelas noites de trabalho silencioso e consciente: escolher não nutrir ressentimentos, buscar o aprendizado sutil e alquimizar o desconforto em paz.
O sentimento foi transmutado, mas o corpo e a mente sentiram o peso do dia. Entre entregas espirituais, dança, caminhada e esse recolhimento denso à noite, fui dormir exausta.
Ainda assim, deixei o despertador ajustado para às 7h da manhã.
Mesmo cansada e com a possibilidade de o céu estar nublado, senti que valia a pena testar a sorte.
Havia alguns impedimentos no caminho: primeiramente o cansaço em si e a vontade de ficar quentinha no edredom dormindo até mais tarde.
Mas além disso, nessa viagem eu vivi uma experiência bem interessante com a cachorrinha da casa, que não parava de latir e rosnar pra mim cada vez que me via. Como já fui mordida por cachorros algumas vezes, meu corpo reage com medo quando isso acontece, de uma maneira até meio irracional. E a cachorrinha, por mais dócil que fosse, sentia esse medo emanando de mim, e como um espelho, refletia ele de volta. Percebi ali uma oportunidade de praticar a presença e o controle das emoções, e finalmente, no terceiro dia de convívio com ela, conseguimos ficar em paz.
Ainda bem, porque se ela continuasse rosnando para mim enfurecida, eu não teria conseguido ir até o varal nos fundos da casa para recolher minhas calças, e teria que ir pra praia de pijama.
Sendo assim, os dois primeiros obstáculos do dia foram vencidos: venci as garras do edredom e controlei as emoções para conseguir vestir minhas calças.
Agora a questão era destravar o portão elétrico, para poder abrir manualmente. Meu dindo havia me explicado que ao abrir a porta do motor havia de se puxar uma alavanca, mas eu procurei e procurei por aquela alavanca, quase arranquei a capa do motor, e não consegui destravar o portão.
Como eu já tinha vencido uma série de obstáculos pra estar ali na frente daquele portão, eu não poderia simplesmente desistir, tirar as calças e deitar na cama derrotada, eu precisava ir até o final.
Então a brilhante ideia, a única alternativa possível: pular o portão.
Que cena engraçada, eu escalando o muro e pulando pra fora da casa. Devo dizer que me deu uma boa dor no braço porque em vez de pular diretamente pro chão, eu quis me segurar no muro, e acabei me contorcendo toda! Como dizemos aqui no Rio Grande: que fiasco!
O que importa é que consegui vencer o último obstáculo e agora o caminho da praia era uma linha reta de menos de um quilômetro.
Sem energias, nem mesmo música quis ouvir nos meus fones, só queria chegar ao meu objetivo.
Ao me aproximar da beira-mar, me surpreendi ao ver que já havia pessoas correndo no calçadão, e ao entrar na praia, mais pessoas ainda. 3 mulheres conversavam animadas, tirando fotos e apreciando o amanhecer.
Sentei-me não muito distante delas, mas eu não compartilhava daquela mesma animação, e para completar, o sol não se deixava ver nem mesmo um pouquinho de trás do mar de nuvens cinzentas.

Na tarde anterior, apesar de estar nublado, o horizonte se limpou na hora do pôr do sol, e uma faixa de cor-de-rosa e amarelo preencheu o céu por um bom tempo. Mas aquela manhã não reproduziu o mesmo espetáculo, o máximo que se podia ver era um leve brilho no horizonte.
Talvez meu cansaço tivesse sido compensado se o sol brilhasse forte sobre o mar, mas naquele início de manhã, sentia-me arrependida de não ter ficado no quentinho da cama. Pra piorar, eu havia pulado o muro, então agora estava presa do lado de fora, visto que não era possível escalar de fora pra dentro da casa. Eu teria de esperar até meus dindos acordarem para poder entrar de novo.
Fiquei desanimada com essa ideia, tentei respirar, mas realmente não tinha forças. As emoções densas da noite anterior e a constatação de que não veria o sol nessa viagem voltaram a me atormentar.
Aceitar aquela situação estava sendo difícil, e resolvi caminhar pra deixar o tempo passar. Caminhei de um lado ao outro da praia, conversando comigo mesma, e tentando sentir o divino nas ondas do mar, como eu havia escrito há apenas dois dias, mas tentar forçar essa conexão é algo que sempre traz mais dor.
Saí da praia e me encontrava novamente na cidade; o relógio marcava 8h da manhã. Eu já havia mandado uma mensagem pra minha dinda perguntando se ela tinha acordado, mas nada de respostas até o momento.
Pensei em ir voltando lentamente pra casa e ligar pra ela quando chegasse, mas essa ideia me pareceu ruim, voltar pra casa com aquele humor seria péssimo.
Então resolvi caminhar em direção às rochas do dia anterior, pra buscar um lugar onde eu pudesse encostar as costas e relaxar meu corpo.
Encontrei o lugar perfeito: a parte gramada da prainha.
Estendi minha canga na grama, numa parte inclinada que me permitia olhar pro mar ao me deitar. Foi o instante exato em que meu corpo finalmente se rendeu, soltando todo o peso e ficando totalmente apoiado no chão.
Percebi que eu não havia escutado nenhuma música o dia todo, nem rezos, nem pontos. Então coloquei um rezo indígena bem calminho pra tocar e, sem nenhum esforço, as ondas do mar começaram a ganhar um brilho especial.
Eu respirava lentamente ouvindo a música. Às vezes de olhos fechados, às vezes observando as ondas, e logo comecei a relaxar e me abrir, sem forçar.
Com o tempo, uma música após a outra, uma respiração após a outra, aqueles pensamentos de frustração, arrependimento e tristeza foram se dissolvendo.
Uma paz tranquila tomou lugar.
Então começou a tocar “Komaroya” um rezo do povo Yawanawa que se tornou especial pra mim depois de ouvi-lo em uma cerimônia de Ayahuasca.
Escutando-o senti vontade de cantar, então sentei e comecei a cantar pras ondas e pro céu cinza, que agora pelo menos revelava um certo contraste entre as nuvens.
O sol subia no céu, e o dia clareava.
Cantando, senti que era o momento de tocar o maracá, e quis mudar de lugar, pra ficar mais perto das rochas e do mar. Quando levantei e puxei a canga, vi que nela ficou preso um pedaço de fibra, algum tipo de trepadeira seca, e usei ela pra fazer um pequeno artesanato em forma de losango. Na verdade, tentei fazer um círculo, como quando faço os brincos com palha de coqueiro, mas a trepadeira tinha uma textura diferente, e esse símbolo sagrado e cheio de significados se formou entre meus dedos. Para mim, o losango simboliza a completude, e também um portal de consciência.

Acompanhada desse pequeno artesanato e de um incenso pros caboclos, iniciei a cantoria, guardando os fones para poder escutar o som das sementes, da minha voz e das ondas.
Cantei muito. O bom de cantar é quando começo nunca quero parar, da vontade de cantar a manhã toda.
Quando terminei senti de fazer outra oração, como a da tarde anterior.
Subi nas pedras e comecei a agradecer, a agradecer e agradecer sem parar.
Não foi possível pensar na sacralidade daquelas rochas sem pensar no povo Guarani, com quem aprendi que as rochas são nossos ancestrais. Agradeci a esse povo de todo coração.
Agradeci a Iemanjá e finalizei meu rezo chacoalhando o maracá.
Recolhi minhas coisas pra ir embora, e quando eu estava descendo pela calçada, pensei comigo mesma “melhor ir pela praia”. Então desci uma escada que havia bem ali mesmo onde eu parei, e pra minha surpresa, encontrei o meu grande presente do dia, um rosto indígena esculpido na pedra!

Fiquei tão emocionada de ver aquele rosto ali, bem nas pedras onde eu estava rezando há poucos instantes! Tirei logo uma foto da escultura, e bem pertinho dela havia umas flores de cor lilás vibrante, de uma beleza única e quase poética.
Essas fotos fecharam com chave de ouro essa bendita manhã.
Mais tarde quando já estava em casa, pesquisei a foto no google e descobri que essa escultura se chama “Curumim” e foi feita pelo artista Francisco Gomes de Oliveira, no ano de 1952, em homenagem aos povos originários que habitam essas terras há milhares de anos.
Achei esse artista revolucionário, por expressar um sentimento de honra aos povos originários numa época onde o preconceito era ainda maior do que o que vemos hoje.
Fiquei feliz de ver essa escultura persistindo por mais de 70 anos.

Eu estava leve, tranquila; já eram quase 10h da manhã. Até o momento, minha dinda ainda não tinha respondido a mensagem que mandei, mas algo dentro de mim sabia que ela ia responder na hora certa.
Foi caminhando na direção de casa, esperando a notificação do celular chegar a qualquer momento, que tive uma ideia que testaria a minha intuição e as sincronicidades.
Decidi dobrar na esquina e fazer uma parada no mercado na rua de trás da casa.
Justo quando saí do mercado recebi a mensagem dela dizendo que já estava acordada. Bem que eu sabia que seria no tempo perfeito!
Quando cheguei na frente da casa, contei pra ela que eu havia pulado pra fora e por isso precisava dela pra poder entrar. Foi então que ela me mostrou como era ridiculamente fácil abrir o portão: não precisava de alavanca nenhuma, só abrir a portinha do motor.
Não pude deixar de rir de mim mesma fazendo toda aquela aventura de pular o muro.
Mas olhando bem, foi graças a isso que eu tive a melhor manhã de todas. Uma manhã que começou pesada e triste, se transformou na mais pura alegria e leveza, com direito a presentes da vida!
Se eu não tivesse ficado “presa” do lado de fora, provavelmente não teria vivido toda a magia que vivi, e por isso, que sempre, sempre confio no fluxo da vida. Ahmyo. Tudo está em perfeita ordem, nada acontece por acaso.
Com isso, encerro a narrativa dos meus três dias em Torres.
Espero que minhas histórias sobre a magia na vida ordinária e cotidiana tenham sido de serventia para trazer reflexões, inspiração ou pelo menos um pouco de divertimento para sua vida!
Meu propósito ao compartilhar é sempre servir. Adoraria ouvir o que você achou da história de hoje, e adoraria mais ainda se você também tiver uma história pra compartilhar!
Um abraço e até a próxima.
Com amor, Liah’ah.



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